terça-feira, 26 de julho de 2011

BRANCAS

                                          (Dona Jacira)


Firmes e brancas e longas
Cruzadas elegantes sob o birou:
Olhos atentos vigiavam
Seus movimentos sublimes
- Doce pecado.

Esguias e brancas e firmes
Conduzindo a cadência exuberante
Dos quadris
Na religiosa viagem matinal
Pelas ruas de nossa escola.

Longas e brancas e unidas
Deixaram as viagens da vida
E ganharam tragicamente
A eternidade das lembranças.

A LIBERDADE E SEU TEMPO

Pensam ser a liberdade apenas
jovem:
A atiçar anseios juvenis,
A pintar de cores exuberantes
As cenas e os dias comuns.
A emitir lancinantes gritos
Nos ambientes mais selpulcrais.
A dourar verdes sonhos
e desejos.

A liberdade não é estacionária
no tempo.
Ela caminha lado a lado com a
opressão
Tentando avivar-lhe os sentidos
moucos.

A liberdade é assim como o olhar
 de Deus.
Que não se desprega nunca dos
oprimidos,
Muito menos dos opressores.

sábado, 23 de julho de 2011

ANINHA

                                                         (Uma aluna)

Sei que estive guardado
Por trás de tuas retinas
Como um sonho irrealizável.
Fui alimento diário de tua esperança
Enquanto fui presente com minhas maneiras.
Saibas que te guardo
Como presa que não abati
Da forma igual como me guardas
Como caçador
Que se apiedou de abater a presa
Apenas por mórbidos prazeres.

ANSEIO

Não te quero
Rondando à minha volta
Como se me quizesse sempre
Dentro de você.

Não quero ter que estar
Em qualquer lugar determinado.
Não preciso nada ter
Muito menos a posse de qualquer ser.

Quero apenas o pleno domínio
Dos limites de mim
E a liberdade dos meus desejos.
Também em alguns ótimos momentos
Quero a paz dos meus sentidos.

CRIANÇAS QUE EU CONHEÇO

Crianças que eu conheço
Elas não sabem sorrir
Também não sabem chorar
Trazem na face um enígma
Difícil de decifrar
Um misto de sorriso e pranto
Um quê de desencanto
Um porquê do não achar.
Crianças que eu conheço
Elas não sabem querer
Não tem sonhos de infância
Existem porém sem viver
São pequenos fardos do mundo
Habitantes dos submundos
Passageiras do tempo
Filhas dos contratempos.
Crianças que eu conheço
Elas não sabem brincar
São voluntárias sem nome
De um exército pitoresco
O grande exército da fome.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

DESNOITE

Uma vez
A noite se fez dia na aparencia
Para mostrar algumas diferenças
Que se escondem sob o seu negro manto.

E em todos os rostos
Se estampavam o espanto
Ao verem verdades e mentiras
Desfilando nuas pelas ruas.

Muitas crenças e descrenças
Foram demolidas ou formadas.
Muitos encapuçados vagabundos
Foram lançados ao ridículo do mundo.
Muitas damas foram desclassificadas
E mais meretrizes foram batizadas.

Fê-se noite novamente
Apenas com o negror dos escândalos.

HOMEM COMUM

Homens comuns
Não são os que desfilam anônimos
Vestidos, calçados e despreocupados
Pelas ruas.
Nem são também aqueles
Que não sabem pensar
Porque não fazem por sentir.
Ou que não sabem chorar
Porque não fazem por sofrer.
No mínimo esses parecem ser
Homens incomuns ou semi-homens.

O homem comum
É o que se engaja ao parceiro
Como o boi que se engaja na parelha
Para puxar o carro carregado.
Como a formiga que se engaja às companheiras
Para conduzir a barata morta.

O homem comum
É o que não deixa morrer a sua idéia
Que nasceu livre
E que nunca frustra a sua causa
Quando promete bons efeitos.

A esse homem
Que os outros lhe turbam a qualificação
E lhe distorcem a peculiar figura
É permitido sofrer e honroso chorar
Pois não lhe é proibido sentir.

O QUE SOU

Não sou poeta de regras fixadas
Nem trovador de viola afinada.
Sou um cantor de canções desoladas
Que se perdem nos ouvidos do tempo.
Sou um assobiador de arias de amargura
Que se ouve longe nas noites escuras.
Sou uma folha seca voando no vento
Esquecida do seu verde do passado.
Sou um inocente sendo condenado
Aceitando sorrindo sua falsa culpa.
Sou um grito febril que não se escuta
Entre milhões de gritos sem razão.

Sou lucidamente imperfeito
Ou talvez um louco satisfeito.
Quem sabe ainda...
Um racional que não me aceito

terça-feira, 19 de julho de 2011

COMO QUEM JAZ

                                                                    (Lembranças de Zé Canuto-Meu pai)


Não mais surpresas
Por isso o caminhar sem sobressaltos
Por isso a fronte paralela ao horizonte
Por isso o firme olhar e o muito siso.

O silêncio como argumento
Já que se rejeita aprender do que se fala.
Apenas mesmo o displicente ouvir
Que nem consente nem recusa.

Não mesmo mais surpresas.
Por isso essas ondas uniformes
A fluirem de sua mente que semelha repouso.
Por isso essa economia de gestos
Que faz seu corpo semelhar preguiça.

VÍCIO

Constante suplício.
Funesto companheiro
De turtuosas jornadas.
Maléfico acompanhante
De viagens frustradas.

Dor profunda
Travestida de falso prazer.
Plástica alegria
Prenúncio da mais cruel agonia.

Monstro silencioso
Habitante de pantanosos lodaçais
Às vezes exibindo brilhantes fantasias
Sai do mais podre lixo
Para o luxo de granfinos comensais.

Oh! vício:
Onde um DEUS que te suprima
Ou uma Deusa que te anule entre os mortais?

segunda-feira, 18 de julho de 2011

SINOS DO ADEUS

Tocaram os sinos do ADEUS
Nada  mais adianta.
Nem mesmo essa agonia
Nem mesmo esse pranto:
Fará reter
Quem deixou de amar
Ou talvez
Quem jamais amou.

Calaram os sinos do ADEUS
Agora só distancia e calmaria
E seus olhos - espelhos tristes
E seu coração - ferida eterna.

Agora só um silêncio de morte
E uma noite eterna se anuncia.

Mas o que importa
É o que o parasita do amor se vá
E que um dia morra de tédio
Se não aprender a amar.

NICE

Se eu te visse
Passeando entre nuvens
Não ficaria surpreso.
A sutileza que te cerca
Parece coisa natural.
Se eu te visse
Sendo conduzida como rainha
Num cortejo de festa
Estaria entre todos
Aclamando com ardor
Tua passagem.
Se eu te visse
Num ambiente etéreo
Cercada de emanações de paz
Entraria com cerimônia
Como quem busca um milagre
No templo em que reinaria como Deusa.
Se eu te visse
Numa noite qualquer
Entre as paredes nuas do meu quarto
Guardaria como um sempre
Esse momento de nunca esquecer.

domingo, 17 de julho de 2011

FATALIDADE

Existem prisões
Cujas correntes não se deixam ver:
Prisões presas em nós
Submersas em nossos abismos.
Soltam-nos os pés e as mãos
Porque sabem do nosso receio de andar
E da nossa impossibilidade de agir
Já que nossa alma é sua presa.
Existem mordaças
Que nos deixam livres a língua e a boca
Mas que nos oprime o peito
Onde se fabrica o grito.
Existem grades
Que não são feitas de ferro ou aço
Mas de nossas próprias fibras.
Existem abismos
Aos quais nos conduzimos
Com nossos próprios passos em falso
Na rota da vida.
Existem vidas
Que apesar de bem sentidas
São na essência
Destituidas de vida.

RUAS E RUAS

                                                                                    ( Às ruas de Riachuelo)


Rua nova
Rua do Canto
Rua do Cuminho
Rua do Brejo
Rua da Palha
Rua do Caixão
Rua da Lama
Rua da Rodagem
Rua da Salina
Rua da Aurora...
Envergonharam-se de nomes tão saudade
E à revelia
Das marcas marcadas nos seus leitos
Por pés que não sabiam que marcavam.
De ecos ligeiros de vozes e de correrias da infância.
De ecos lentos e surdos de notívagos...
Fizeram-se ruas de nomes tão sem graça
Que já me fogem à lembrança
Ou que nunca mereceram ser lembrados.

Réquiem

                                                               ( celebrando a morte do
                                                                          do que não conseguiu nascer)

Iniciei o difícil ofício de te esquecer.
Procurei em outros corpos anônimos
A textura deste corpo teu
Que jamais me permitiste tocar.
Difícil encontrar porém
A doçura que reténs no teu olhar.
Tento diluir tua lembrança
Pelos lugares onde andar procuro.
Quero deixar cada vontade de querer
Em lugares onde jamais pensaste passar.
Nos botecos de balcões toscos
Cuspidos pelos bêbados vulgares.
Nos cabarés de putas decaídas
Que recebem meu olhar de pena
Como se de desejos fossem.
Ah! se soubesses como te adoro
E de como me foge a esperança...
Talvez algo em ti despertasse
E verias que a tua morte anunciada
É apenas a natural necessidade
De te aninhares em meus braços.


.

sábado, 16 de julho de 2011

VAZIO

Hoje
Procurei em vão
Os temas e as palavras
E a vida:
Meus olhos passearam inertes
E nada me disseram.
Minha alma
Esteve impenetrável às paixões.
A poesia me impunha sua trégua
E eu cruzei as ruas
Como se nada fosse.

Hoje
Fui a visão longínqua de um trem
Silencioso e vazio
Que passa vagaroso e macio
Na realidade-quase-sonho.
Fui a chama triste de uma vela solitária
Velando a morte de mim mesmo.

Hoje
Eu não fui como sou verdadeiramente.
Fui somente
A sensação angustiante de nada ser
E o desespero de quem se vê morrendo.

Hoje
Fui um estrangeiro em mim.

Sentimento Deus

Tudo poderá ser dito
E ainda será pouco.
As palavras só brilham
Até um ponto finito.
Tudo poderá ser sentido
E ainda será pouco.
O corpo tem um limte
Até mesmo pra dor.

Nenhum sorriso será o bastante
Para se comemorar a sua vida.
Nenhum pranto será o bastante
Para se chorar a sua morte.

Falo do amor -
Único sentimento
Que se parece com Deus.

Os Olhos

Os olhos
Não são apenas janelas
Para debruçarmos nossas melancolias.
São também escudos
Para nossas defesas insperadas.
Os olhos são reservas
Para submissão à nossa alma.

Ah! meus olhos...
Jamais se cansarão desse ofício
De me seguir pelas imagens da vida.
Ávidos às vezes
Se há condimentos de alegria.
Tristes quase sempre
Quando a razão me desce mais fundo.
Olhos vários em cores
Todos porém únicos em verdades.

Ah! os olhos...
Não são apenas olhos.