sábado, 12 de outubro de 2013

O ESPELHO

Apenas o espelho me diz que mudei.
Esse o grande defeito dos espelhos:
Refletem apenas o nosso molde físico
Degradado na sua forma e aparência
Pelas falências biológicas e temporais.
Só eu sei que não estou me vendo como sou.
Porque não subiria às nuvens
Como faço sempre que quero brincar os anjos
Sem as asas que não vejo alí.
Não montaria o mais veloz dos potros
Como faço sempre que corro os prados do infinito
Com aquele corpo que ali se mostra.
Não mergulharia no mundo da inocência e da fantasia
Para brincar as crianças do mundo
Com aquele siso ali incompreensivelmente refletido.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

AMIGO DO PEITO

Carrego no peito um coração curtido
Que jamais irá me trair de súbito
Afeito que está às intempéries emotivas.
É um bom e forte esse coração
Que me bate no velho peito.
Sempre parceiro vibrante nos sublimes momentos
Quando lhe inundo de paixões
E calmo o bastante nos sombrios
Quando necessito do silêncio
Para digerir tristezas.
Guardião de segredos inconfessáveis
Que debulhará nos caminhos do tempo
Codificados em símbolos como flores vivas.
Espero conduzí-lo ainda muito
Apesar dos encargos e maltratos
Que impiedosamente lhe inflijo
Com meus péssimos e comprometedores hábitos.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Visita ao fundo

Visitei hoje
Alguns dos meus amigos.
Não em suas casas físicas e definidas
Muito  menos em seus parcos espaços e locações.
Mergulhei
Sem ser percebido ou contido
No profundo de suas indefesas retinas.

Varei planos e sub-planos
Dessa infrutífera tentativa de esquivas.
E por fim
Me embeveci do lodaçal de tristeza
Que faz o fundo
De toda essa nossa loucura de enganar
Que só o fundo dos olhos
De quem sabe penetrá-los
Revela com a doce complacência
Dos que nāo sabem fingir.



domingo, 13 de janeiro de 2013

INTROSPECÇÂO

Passei um fim de semana
De olhares interiores
E ouvindo meus próprios  silêncios.
Conheci de mim
Mais alguns segredos
Extraídos do baú onde guardamos abstrações.
Revisei sonhos e despertei saudades.
Passei a limpo em lágrimas
O que o remorso ou a tristeza me fizeram passar.
Revisitei locações onde vivi antigos dias
Carregando pesadas ambições
E conduzindo descabidas preocupações.
Não sei o que resultou em mim.
Passarei a olhar nos outros com mais vagar
Os efeitos do que serei
Após cada uma dessas pequenas reclusões.







quarta-feira, 10 de outubro de 2012

SEM TÍTULO

Não sei o que é a verdade
Nunca ousaram me contar
Aqueles que a tem no íntimo.
Deixam que eu sofra alheio
Mergulhado na amargura da dúvida.
Deixam que eu viva remoendo
A ignorância que tolhe a vida.
Deixam que a morte
Me seja a cada hora desejada.

Não sei o que é a razão
Acho que se esconde nos medos
Nas ilusões e nos desejos dos outros.
Aninha-se nas juras mentirosas
E nas palavras que só dizem os lábios
E que jamais poderiam ser ditas.

Não sei o que é a lógica
Se às vezes vem a morte antes da vida.
Se às vezes se pode fingir o pranto.
Se se pode enganar a vida inteira.

REMORSO

Faz tempo
Que seus olhos sairam da minha vida -
Olhos tristes e marejados sempre.
Faz tempo
Que não ouço seu pranto em meu peito
Na minha paz angustiosa.
Faz tempo
Que já não somos nada em nós.

Faz tempo
Que um par de olhos entrou em nossas vidas -
Olhos que ainda não sabem ser tristes.
Faz tempo
Que o remorso pelo abandono de olhos me assalta.

PASSAM OS DIAS...

Passam os dias
Como se fossem feitos em série
Me deixando atônito
Em não puder detê-los em sua marcha.

Passam os dias
Repletos de seus feitos alheios
Enquanto deles vejo em lampejos
Risos, brilho, fantasias multicores
Como a zombarem do meu tédio.

Passam os dias
Como os trens da minha infância
Que de tão longe que passavam com suas fumaças
Me pareciam imagens de impossíveis realidades.

Passam os dias
Como que pisoteando  minha sombra
Realidade maior do que hoje sou
Enquanto contrito com  a alma
Revisito todo espectro da existência.